TERCA, 29/09/2026, 08:32

Estudante da UEL é a primeira indígena do Paraná a conquistar um doutorado

Defesa da tese de Gilza Kaingang foi realizada na Terra Indígena São Jerônimo, onde pesquisadora cresceu, em uma escolha que aproximou a universidade da comunidade

A trajetória acadêmica de Gilza Ferreira de Souza Felippe Pereira, a Gilza Kaingang, ganhou um capítulo histórico na última sexta-feira (25). Mulher da Terra Indígena São Jerônimo, no município de São Jerônimo da Serra, ela se tornou a primeira indígena do Paraná a conquistar o título de doutora. Mais do que uma conquista individual, a defesa representa o avanço da presença indígena no ensino superior.

Gilza chegou à universidade em 2006, inicialmente no curso de Direito. Sem conseguir permanecer na graduação, retornou à comunidade e, posteriormente, voltou à universidade para cursar Serviço Social. De acordo com ela, a experiência em um projeto de extensão com comunidades e escolas indígenas despertou nela o desejo de seguir na pesquisa.

No mestrado, Gilza pesquisou mulheres indígenas, especialmente mulheres Avá-Guarani do Oeste do Paraná, abordando a relação delas com o ensino superior e as lutas enfrentadas nos territórios. A continuidade dos estudos foi facilitada pela política de cotas na pós-graduação da UEL, instituição que foi pioneira no Paraná na adoção da medida.

Além da pesquisa, Gilza passou a atuar profissionalmente na universidade como assistente social. A trajetória também foi marcada pela maternidade e pela tentativa de aproximar a universidade de sua comunidade.

A tese de doutorado de Gilza Kaingang reúne a trajetória acadêmica e a vivência dela como mulher indígena, trazendo para a pesquisa as experiências das mulheres de sua comunidade e a relação dos povos indígenas com a universidade. O trabalho também discute como o ensino superior pode contribuir para fortalecer a autonomia, a luta e a permanência das mulheres indígenas nesses espaços.

Foi justamente para aproximar esses dois universos que Gilza decidiu levar a defesa da tese para a Terra Indígena São Jerônimo. A apresentação, realizada fora da universidade, foi autorizada pela instituição e reuniu familiares, mulheres e outros integrantes da comunidade.

Para Gilza, a defesa no território também simboliza uma mudança na própria universidade: a possibilidade de indígenas ocuparem esses espaços sem deixarem para trás a própria comunidade, cultura e identidade.

Por Paulo Andrade

Comentários