Exclusivo: empresas de ônibus deixam de receber R$ 21 milhões da prefeitura; documento fala em "colapso" do sistema
Reportagem da CBN teve acesso a tabelas que detalham valores do chamado subsídio que estão atrasados desde o início de agosto. Pagamento dos trabalhadores estaria em risco
As empresas do transporte coletivo de Londrina deixaram de receber, entre 2 de agosto e o último dia 19, R$ 21,6 milhões da prefeitura para o custeio do sistema. Não foram pagos R$ 15,2 milhões para a Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) e R$ 6,4 milhões para a Londrisul. Os valores atrasados, obtidos com exclusividade pela reportagem da CBN, deram base para que o Sinttrol, sindicato que representa os motoristas, enviasse um ofício, à Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), no último dia 17, demonstrando preocupação com a continuidade da prestação de serviço. A notificação falava, inclusive, do "risco iminente" de um "colapso no sistema de transporte público" e pedia pela convocação de uma "reunião de urgência" para discutir o tema.
No documento, o sindicato lembra que os repasses do município, garantidos em uma lei aprovada em 2022, representam 47% do custo total de operação do sistema, "constituindo parcela indispensável para o cumprimento dos compromissos operacionais básicos, incluindo o pagamento da folha salarial e benefícios dos trabalhadores rodoviários".
Ainda conforme o documento, em razão dos atrasos, as empresas "vêm recorrendo sistematicamente à captação de empréstimos bancários a custos elevados para honrar as obrigações trabalhistas e manter os ônibus em circulação". A estratégia emergencial, no entanto, segundo as empresas, "atingiu seu limite financeiro sustentável, tornando iminente a incapacidade de caixa das operadoras para saldar os próximos pagamentos de salários". O sindicato destaca que "é inaceitável que os trabalhadores sejam feitos de reféns ou penalizados por eventuais divergências financeiras ou quebras de repasse" entre município e empresas.
O Sinttrol deixa claro, no documento, que caso a folha de pagamento não seja honrada pelas empresas, a possibilidade de uma paralisação por parte dos trabalhadores é "provável e incontornável".
A reportagem da CBN apurou que a reunião de emergência, convocada pelo sindicato, foi realizada na última semana, e contou com a presença de representantes da CMTU e do próprio prefeito Tiago Amaral. Procurado pela CBN, o presidente do Sinttrol, José Faleiros, confirmou que existe o temor entre a categoria em relação ao atraso dos salários. No entanto, ele disse que o prefeito garantiu que está trabalhando para "colocar tudo em ordem". Em nota, a TCGL informou "que segue cumprindo todas as suas obrigações, incluindo o pagamento dos salários de seus colaboradores". A empresa garantiu ainda que "não há qualquer risco iminente de atraso ou de não pagamento". A reportagem também procurou a Londrisul e a CMTU, mas ainda não obteve retorno.
O colunista de Economia na CBN Londrina, professor Sidnei Pereira, disse que o impasse atual só reflete uma "tragédia anunciada", que, conforme ele, começou a se formar no período da pandemia, quando o número de usuários do transporte coletivo caiu drasticamente na cidade. Na época, na tentativa de atrair a população, as empresas fizeram grandes investimentos na renovação da frota, o que, segundo o economista, encareceu ainda mais os custos do sistema e, consequentemente, aumentou o valor do subsídio por parte da prefeitura. Tanto é que, entre 2021 e 2026, o repasse anual, feito às empresas, disparou mais de 550%, indo de R$ 27 milhões para R$ 177 milhões.
Na avaliação de Pereira, para reequilibrar os custos, o município vai ter que congelar os investimentos na frota e repassar parte do valor ao usuário, aumentando o valor da passagem. Atualmente, a chamada tarifa técnica custa R$ 11,86, mas o usuário só paga R$ 6,25. Ou seja, o restante, quase metade do valor, ainda é custeado pelo poder público.